segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Naseer Shamma: Virtuose, Música de Resistência e Causa Humanitária




SHAMMA: "MEU COMPROMISSO COM A CAUSA HUMANITÁRIA VAI ALÉM IRAQUIANOS OU ÁRABES"


       O maior alaudista do mundo, o virtuose iraquiano Naseer Shamma, compõem e interpreta emotivas reflexões musicais voltada a causas humanitárias, segundo ele "O ser humano é a minha grande preocupação, e uma vez que sou músico e artista, não posso isolar-me do que acontece ao meu redor do mundo. Meu compromisso com a causa humanitária, que vai além iraquianos ou árabes"
        Shamma já corpôs peças musicais sobre Hiroshima, a guerra do Golfo, crianças do Afeganistão "depois de vê-las acampadas em tendas passando muito frio sob o teto da noite" - conta ele; no entanto, ao mencionar o Iraque, a dor em seus olhos é evidente: “Tive que abandonar meu país há 12 anos e todo dia eu acordo com uma ressaca de remorso ao ver como morrem as pessoas ali. Meus amigos músicos me dizem que tem que fazer testes ao telefone, porque têm medo de sair às ruas. Mas estou vivo. Graças a Deus! E com meu trabalho posso ajudar o povo iraquiano". 

       Desde o embargo ao Iraque após a Guerra do Golfo em 1991, Shamma começou a trabalhar com organizações e sindicatos internacionais, oferecendo concertos, com o objetivo de angariar fundos para as crianças afetadas pela guerra. "Por longos anos de embargo imposto ao Iraque, todo dinheiro que arrecadava com os concertos era destinado a comprar medicamentos para as crianças", diz ele.
       Em 2005, Shamma fundou a caridade “Tareek Al Zuhoor” dedicada a apoiar as crianças no Iraque. A caridade oferece cirurgias cardíacas na Índia para crianças iraquianas sofrem de cardiopatias congênitas. Durante a última década, a caridade tratadas 800 crianças. Atualmente, 30 crianças são operadas por mês. 
     Quando mais de 3 milhões de iraquianos foram deslocados pela escalada da violência em 2014, Shamma fundou a associação “Ahlna” para ajudar os deslocados internos. O grupo forneceu tendas, água e pacotes de alimentos em Mosul e outras províncias afetadas.
        Enquanto a guerra continua a destruir a sociedade iraquiana e a violência sectária afeta a vida cotidiana, a música de Shamma oferece uma reflexão acústica profunda da agonia do país. Ao abordar esta tragédia, o trabalho de Shamma contribui para a cultura iraquiana contemporânea, um relato musical vivo da história.

       "O sofrimento do Iraque está presente em todas as minhas composições", frisa Shamma. “Dedico duas ou três músicas por disco para contar as injurias sofridas por meu povo". Felizmente, muitas dessas obras tiveram uma difusão mundial, aos 55 anos (1963) já ganhou inúmeros prêmios internacionais, incluindo o prêmio de melhor músico árabe no Festival de Jerash (Jordan) em 1988, o maior prêmio dado pelo Instituto Superior de Música de Tunis para a obra "História Contemporânea do Amor" no Festival de Cartago em 1990 e menção honrosa como melhor artista do Iraque em 1994. 
       Em 2017 a UNESCO nomeou Shamma como embaixador da boa vontade para a paz: "Naseer Shamma é nomeado em gratidão por seu compromisso com a educação musical dos jovens no Iraque e em outros lugares e por seus esforços incansáveis para transmitir uma mensagem de paz através de seus shows”; onde iniciou um projeto para reformar 21 praças públicas em Bagdá e transformá-los em espaços onde as famílias possam ouvir música e as crianças possam brincar.
      Em julho de 2018 foi nomeado Embaixador da Boa Vontade para o Oriente Médio para a Federação Internacional da Cruz Vermelha e Red Crescent Societies (IFRC). “Estamos construindo a paz através da música, mantendo a nossa cultura, apesar de incrível violência em nossa região”, diz ele.


Shamma sendo Embaixador da Boa Vontade para o Oriente Médio para a Federação Internacional da Cruz Vermelha e Red Crescent Societies (IFRC).
     "Reconstruir o Iraque também significa reconstruir os impactos da guerra que também tem afetado gravemente as artes" disse Shamma The Electronic Intifada. "Tente imaginar que mais de um milhão de iraquianos morreram nesta guerra, por isso a maioria das pessoas realmente estão agora concentrados na sobrevivência no Iraque, mas também estamos lutando para manter a nossa cultura. Através da cultura agora estamos recusando-se a ficar em silêncio contra a injustiça.”

       Os sons do alaúde de Shamma se apossaram dos ouvidos e dos corações de todo o Oriente Médionos, remontando à primeira Guerra do Golfo, nos trágicos episódios causada pelas "bombas inteligentes" americanas. A composição “Ocorreu em al-Amiriya" é uma emocionante homenagem musical para todos os civis iraquianos mortos em um ataque aéreo dos EUA a um abrigo subterrâneo no distrito de Amiriya de Bagdá, em 1991, onde morreram mais de 400 civis. A música começa com lindos tons e de repente muda para um som semelhante às sirenes, ao dedilhar de um alaúde enlouquecido, emulando musicalmente um bombardeio americano. A famosa peça de Shamma é uma referência contemporânea à famosa versão de Jimmy Hendrix do "American Stars and Stripes Hymn" durante o festival de Woodstock em 1969, onde protestava contra a alarmante violência militar da guerra no Vietnã.

       Shamma passou por episódios marcantes devido a suas constantes queixas contra Saddam Hussein e seu regime autocrático, que quase lhe custou a vida. Conforme relatado, em 1993 foi condenado à morte depois de passar 170 dias de prisão e 50 no hospital, recebendo o perdão do governo, graças à intervenção de personalidades do mundo da cultura, políticos e advogados, que estavam interessados em o seu caso. Em seguida, ele deixou o país: "Eu sonhava em visitar o Iraque sem a ditadura de Saddam, mas enquanto existir a ocupação, não voltarei”, lamenta.

       "A guerra teve um impacto absolutamente fundamental na cultura do Iraque", explicou Shamma depois de se apresentar no Festival do Mundo Árabe, em Montreal. "Levará gerações para que o Iraque se cure da invasão norte-americana e uma parte fundamental de nossa cura nacional virá do desenvolvimento continuado do patrimônio artístico do Iraque."

   "Na realidade, sem cultura não há vida e na Palestina a ocupação [israelense] funciona de diferentes maneiras para apagar a cultura palestina", diz Shamma. "A causa palestina me afeta como artista, mas também me inspira porque o povo palestino conservou sua cultura de maneira firme, apesar da extrema pressão da ocupação israelense sofrida pela sociedade palestina".

      Para Shama, o Iraque atravessa a situação mais grave em seus 6.000 anos de história. "O país está dividido, sofre uma desintegração que nunca antes foi visto entre sunitas, xiitas, curdos e árabes", afirma, sem esconder o seu anti-americanismo, como em sua opinião, "a divisão entre denominações religiosas é o resultado da ocupação militar norte-americana, que ficou sob o pretexto de transformar o Iraque em um país livre e democrático".

       "Hoje estamos experimentando uma espécie de fanatismo religioso e da violência que não existia na época de Saddam. A cada cinco minutos há um ataque terrorista ", no mesmo tom de críticaele sustenta que "quando o exército iraquiano captura terroristas, são em sua maioria pessoas de fora, que vêm para o Iraque indicadas pelos Estados Unidos".

       Em 2005 afirmou de maneira polêmica: “A Zarqawi* não existe; há quatro ele era um prisioneiro em Guantánamo". "O povo iraquiano é muito difícil de governar, para que um estrangeiro venha e se faça líder nele”, referindo-se ao suposto governo da Al-Qaeda, que tinha como líder o já falecido Zarqawi, nascido na Jordania.

       Quando pensa no futuro do Iraque, parece desconsolado: “Tudo está entrelaçado, não há nada claro, de maneira que não se sabe quem é o responsável, nem aonde recai a responsabilidade”. Mas, para ele, está clara que a responsabilidade é da ocupação, pois deixou seu país sem Estado, sem instituições e sem um exército. "Estamos em uma situação de nenhum país, nenhuma casa. Ninguém no Iraque ou em qualquer país árabe, nem qualquer político no mundo sabe para onde vai o Iraque".

"Eu não desejo a volta de Saddam, nem seu grupo político no poder, nem mesmo uma hora!, Mas eu não concordo com a ocupação de tropas estrangeiras, ou o terrorismo que existe no meu país. Nestes dias, é impossível as pessoas se reunirem com seus parentes ou amigos sem morrer alguém no caminho. Antes, quem insultava Saddam era condenado à morte, ao passo que agora, basta estar ao volante de um carro na rua, que os militares americanos disparam com suas metralhadoras em todas as direções. A situação é insuportável!" Se queixa-se com razão.
       O povo iraquiano depois de trinta anos de "ditadura brutal”, esperava a ajuda dos Estados Unidos, lamenta decepcionado, enquanto denunciando as tropas americanas “nos venderam mentiras", e põem-se a perguntar: “Onde está a democracia e a liberdade que nos prometeram?”

       Segundo Shamma, a reconstrução do Iraque só será possível com a ajuda da ONU. “É necessário que venham outras forças internacionais, que substituam os exércitos da ocupação, para poder reestabelecer a segurança do país. A comunidade internacional é quem tem que supervisionar a retirada das tropas estrangeiras, e após um período concreto de transição, devolver a hegemonia do povo do Iraque”.

       O processo de democratização política do Iraque deve ser baseada na liberdade de religião, diz ele. "Um governo laico, onde religião e política não se misturam. O presidente do Iraque tem que ser a pessoa adequada, sem olhar para a sua confissão religiosa, ou o grupo social a que pertence, seja ele a maioria ou a minoria ", conclui.



       Além do Iraque, hoje, a música de Shamma fala de uma profunda história cultural, enraizada em tradições musicais que na Mesopotâmia remontam a mais de 5.000 anos. Na verdade, as primeiras representações conhecidas do alaúde foram desenhadas na antiga cidade que hoje é Nasiriyah, no Iraque. Shamma agora se destaca em uma história que não deixou de ter continuidade, cujas raízes antigas estão ligadas às origens da civilização.

      Há uma crença generalizada de que foi no Iraque que o alaúde nasceu, um instrumento que viajou através de países e continentes, um elemento cultural em todo o Oriente Médio para a Ásia. Durante o século passado, o alaúde popularizou muitas vezes canções conhecidas sobre a resistência à colonização e opressão na região.

      Pensemos no maestro de alaúde libanês Marcel Khalife, cuja evocativa e perturbadora melodia sobre o exílio palestino "Jawaz al-Safr" ("passaporte") continua a ser uma expressão poética popular da Palestina. No Egito, o popular cantor Sheikh Imam era a voz dos trabalhadores pobres do Egito e colocou a música do alaúde nas palavras do famoso poeta Ahmad Fouad Najm. É sobre essa incrível história que tece resistência popular e alaúde que Shamma atualmente trabalha.

     Artistas independentes e politicamente entrincheirado como Shamma desempenham um papel importante na manutenção dessa relação crítica entre a cultura e a luta pela liberdade na área, contrastando com o atual cenário pop do Oriente Médio, onde cantores conformistas, produto musical de empresas sauditas, que abundam nas televisões e cafés. 

       Não deixa de ser politicamente arriscada para Shamma falar em favor da Palestina, mesmo morando no Egito,  cujas medidas políticas nos últimos anos são um exemplo de um apoio político inabalável para com os sucessivos governos Israelenses. A postura pública de solidariedade para com a Palestina, expressa por artistas famosos como Shamma, é um estímulo para outras figuras proeminentes no Egito que defendem publicamente a causa palestina.

       Shamma é considerado um guardião cultural contemporâneo da herança musical árabe; PhD em Artes pela Arabic Open University, também diretor da Câmara Árabe do Oud (Beit al-Oud al-Arabi) no Cairo, em Alexandria, em Bagdá, em Abu Dhabi e em Cartum. "Estamos agora criando uma nova geração musical através de Beit al-Oud al-Arabi", explicou Shamma. 

"Aos olhos dos jovens, vemos o nosso futuro”.




fontes:
http://spanish.china.org.cn/txt/2017-02/21/content_40326671.htm
http://electronicintifada.net/v2/article11054.shtml
http://www.ethelbonet.com/shamma-mi-compromiso-con-la-causa-humanitaria-va-mas-alla-de-los-iraquies-o-los-arabes/
https://media.ifrc.org/ifrc/2018/07/27/naseer-shamma-ifrc-goodwill-ambassador-middle-east/

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