sexta-feira, 7 de setembro de 2018

REVOGO: Onde? Brasil. Quando? Hoje. Quem? Nós mesmos - Fotografia de André Liohn


 
     André Liohn visitou 5 regiões do Brasil, tanto as capitais, quanto as cidades do interior, seguindo o mapa da violência, entretanto suas fotografias não especificam nem local ou quem são as pessoas, ou seja, nenhuma legenda específica, apenas a tentativa de unir os brasileiros através de uma identidade visual.      

A legenda da amostra revogo é a mesma para todas as fotos*: 

Onde? Brasil.
 Quando? Hoje. 
Quem? Nós mesmos. 

     "O que nos faz sentirmos co-cidadãos, nós brasileiros"? Questiona André ao comentar sobre a realidade dos brasileiros, afinal os brasileiros não tem a mesma religião, origem étnica e nem a mesma língua, pois o linguajar difere em muito devido a variáveis condicionadas a aspectos regionais e a classes sociais. “Nós já temos elementos suficientes que nos distancia uns dos outros”, então, o objetivo se seu trabalho Revogo é que, independente das diferenças que permeiam a vida dos brasileiros e os distanciem, eles possam olhar as imagens e se identificarem: “Eu me identifico dentro disto, porque individualmente eu me identifico com o brasileiro” - afirma.

     Liohn passou os últimos 10 anos de sua vida cobrindo conflitos de guerra no mundo, vindo regularmente visitar o Brasil e sempre ouvia a mesma pergunta incômoda: O que é pior, a guerra lá fora ou a guerra que existe aqui no Brasil? 

       Não sabendo como as pessoas afirmavam que no Brasil exista algo parecido com uma guerra, para repetirem sempre a ele a mesma pergunta, Liohn resolveu encontrar respostas, partindo da premissa que possa ser verdade tal afirmação: “vou usar o método da fotografia de guerra pra fotografar a violência no Brasil e a partir daí tomar uma decisão, tirar uma conclusão se no Brasil tem ou não uma guerra”

       Após finalizado o trabalho e ter visto o suficiente, Liohn conclui: 

       “A minha conclusão é que obviamente o Brasil não tem uma guerra, o que o Brasil tem, em minha opinião é um caso de delinquência crônica, e a delinquência crônica tem muitas coisas parecidas com a guerra, sendo a principal: a possibilidade, a eminência de uma morte violenta de qualquer cidadão. Ela existe no Brasil e existe numa guerra, claro que numa guerra a iminência de uma morte violenta ela é muito maior, só que isso não interessa (...), pois quando você está sob ameaça de uma morte violenta, não interessa se essa iminência seja grande ou pequena, você vai se incomodar, e viver sob a iminência de que possamos morrer de forma violenta nos faz assumir comportamentos violentos, até de forma preventiva, pra que se alguém for morrer aqui de forma violenta, não seja eu, seja outra pessoa, alguém que não faca parte de meu ciclo de convívio”.

E continua: “A diferença de um estado de delinquência crônica e guerra, é que, no Brasil, o diálog ainda é possível e ainda pode ser sufiente para que nós possamos solucionar nossos problemas aqui no país, enquanto em um local de guerra, um diálogo nem é mais possível e nem é mais suficiente, você às vezes precisa de intervenção militar, sanções econômicas, enfim."

      Liohn critica o período hedonista predominante em nossa sociedade atual:  “A minha foto eu não sei se ela é violenta, mas sei que pelo menos ela não é hedonista, ela vai contra essa atitude até bastante generalizada, de que a felicidade tem que ser alcançada a qualquer custo”.

“A felicidade que exige o sacrifício de nossa consciência sobre o mundo, ela não é para mim uma felicidade que valha a pena ser alcançada, até porque eu não chamaria isso de felicidade, mas talvez de ignorância, de conforto ignorante. Com minha foto eu tento trazer novas perspectivas para que as pessoa possa argumentar de uma forma talvez um pouco mais complexa sobre os problemas que ela tem na vida”.


       As imagens de Revogo mostram desde uma  mãe que usa crack diante da TV enquanto deixa o filho recém-nascido no sofá; corpos descobertos de jovens negros assassinados sendo carregados em um caminhão, crianças armadas servindo ao tráfico, até uma mulher seminua sendo tocada por inúmeros homens em uma premiação de um baile funk. Para tal seleção, Revogo contou com a curadoria do nova-iorquino Thomas Roma, grande nome da fotografia contemporânea.

(*mas eu coloquei as legendas de cada foto)
Um menino de 11 anos de idade, membro de uma facção criminosa armada em São Paulo, aprende a atirar uma pistola automática 9mm, maio 2013
 © André Liohn

Uma oficial da polícia foi ferida por uma pedra atirada por manifestantes e é ajudado por seus colegas, São Paulo,
maio 2014
©  
André Liohn
Um policial em São Paulo prende um jovem acusado de roubar um carro,
junho 2014
© André Liohn
Menino armado trabalha para o tráfico de drogas.
© André Liohn

O funeral do oficial de polícia Rodrigo Ribeiro Pinto,morto na favela do Rio de Janeiro
 November 2015
 © André Liohn

"Todos os dias, os jovens afiliados dos gangues, assim com os seus amigos e familiares, vêem-se envolvidos em vinganças sangrentas que causam mortes entre civis e polícia, que tenta conter a onda de violência que, por esta altura, parece imparável."

Em 14 de novembro de 2012, 600 pessoas que vivem em uma favela no leste de São Paulo perderam suas casas a um incêndio
©  André Liohn
Mãe deixa o bebê no sofá para consumir crack.
©  André Liohn

©  André Liohn

Corpos de Robert da Silva, 18 anos, e Ronaldo Pires Barros, de 17 anos que perderam suas vidas em São Paulo, num ataque armado.
©  
André Liohn

©  André Liohn

menina alucinada após ter cheirado éter.
©  André Liohn
garota em show erótico em São Paulo.
©  
André Liohn

Marca de cerveja premia a mulher mais devassa em baile funk no Rio.
©  André Liohn
       “Há quem possa argumentar que essa mulher é dona do próprio corpo e protagonista da própria vida. Então porque a mulher não pode decidir sobre o próprio corpo quando a questão é o aborto? O que vemos aí é alguém em busca de um prêmio que vai tirá-la do anonimato. Curioso que essa cerveja tenha entendido que a devassidão é um atributo no país, enquanto o que acontece é que temos que ser devassos para sair do nosso anonimato”,  argumenta Liohn.

©  André Liohn
Prostituta mostra os seios num dos bares de Botucatu.
©  André Liohn
Carlos Warley Telles Barbosa, de 17 anos, morto por atirador não identificado.
©  André Liohn
Carla Pereira, de 19 anos, grávida de 4 meses de um traficante local, é assassinada como forma de vingança.
©  
André Liohn
Policial membro da Rota em ação em um bairro de São Paulo.
©  
André Liohn
Dois jovens integrantes de facção criminosa fumando maconha.
©  
André Liohn
"As drogas transformaram as favelas brasileiras num inferno, com milhões de seres humanos forçados a viver sem acesso a saneamento, reféns de um governo ausente e, pior, em cumplicidade com os gangues que competem por um gigantesco mercado de droga", comenta Liohn.

Policiais invadem casa em busca de cativeiro.
©  
André Liohn
©  André Liohn

©  André Liohn


Confira a entrevista na feira fotografar:



Fonte: 
Entrevista Feira Fotografar 2016
https://brasil.elpais.com/brasil/2015/10/07/cultura/1444224914_711273.html
https://www.independent.co.uk/news/world/americas/brazil-war-photographer-andr-liohn-documents-a-country-in-chronic-disorder-a6925776.html
https://www.publico.pt/2017/10/03/p3/fotogaleria/brasil-um-pais-de-violencia-imparavel-386698
















Nenhum comentário:

Postar um comentário