quarta-feira, 2 de julho de 2014

“Elegia 1938” - Mais Atual que Nunca! - Carlos Drummond de Andrade.


Os poetas sabem das coisas, já me disseram certa vez. 
É a mais pura verdade.

Carlos Drummond de Andrade em "Elegia 1938", deixa tão explícito o aprisionamento da alma humana na densidade das coisas e no sistema - não sei se este seria o termo adequado, mas acredito que seja algo similar ao seguir um fluxo imperceptível e quando percebido,  somos tomados de tamanho desânimo  e impotência, que só nos resta arrastar mediante nossas derrotas.
Concluo com as palavras do poeta:
"...Eta vida besta, meu Deus." (1930)

        Elegia é um poema composto de versos hexâmetros e pentâmetros alternados — conceito que não se encaixa ao poema em questão —, ou poema lírico de tom terno e triste; canção de lamento — conceitos que se encaixam plenamente com o tom e a temática do poema de Drum­mond.

Escolhi a declamação de Caetano Veloso, que além de impecável, ao fim desta, ele relaciona a poesia ao atentado ao 11 de setembro.






Elegia 1938

"Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.

Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.

À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.

Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.

A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.

Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan."




Carlos Drummond de Andrade














2 comentários:

  1. Drummond tem a profundidade dos poetas e dos artistas; e é por isso que suas poesias são sempre atuais. O artista sente isso melhor que qualquer pessoa e o poeta transcende quando escreve seus sentires, muito embora nunca consiga exprimir tudo que lhe vai na alma. Seu blog tá show!!!!!

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    1. Reli e ouvi novamente Caetano declamando o poema, mais uma vez fiquei impressionada, assustada com tamanha contemporaneidade deste poema!

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